Saturday, March 1, 2008

The Secret Woman


És, pensas tu, um mistério para os outros. Tens, pensas tu, um segredo que mais ninguém tem. És de facto aquilo que a ti própria chamas, a secret woman. Mas eu conheço o teu segredo, adivinhei-to mas não te digo o que adivinhei. Quero que saibas que o teu segredo é agora também meu e de mim não sai nem para ti. É bom que tenhamos segredos, bem guardados no sacrário da nossa mente, para ser mais racional; ou, para ser mais romântico, no nosso coração; ou, para ser mais vital, no nosso corpo. O teu, de tão entranhado e resguardado, é natural esteja em todos esses territórios. Claro que todos temos segredos, vários segredos, mas O Segredo, ESSE!, aquele que não pode ser desvendado ou partilhado só esse merece tal nome. Se fiquei feliz por descobrir o teu segredo? Essa resposta fica agora meu segredo e desafio-te a adivinhá-la. Eu sei que te é indiferente e esse é o cerne do teu segredo. Quero que me desculpes por saber do teu segredo, não por ele, mas por devassar a tua intimidade, um direito que não me assiste, eu sei, mas aconteceu e aqui estou para me penitenciar e te pedir desculpa. Penso que seria desonesto calá-lo e que é de amigo, se asim me consideras, contar-te que sei mas não o que sei pois isso ambos sabemos.
Não fiquei feliz nem infeliz por conhecer o teu segredo, fiquei tranquilo. Há séculos que não me sentia assim: tão em paz comigo, com a minha natureza e contigo, anjinho safado.

Wednesday, February 13, 2008

O Deserto dos Tártaros

Posto avançado da fortaleza Bastiani. Dias, meses e anos a olhar para este campo árido e álgido à espera. Da linha leitosa e esfumada do horizonte nada surge da tempos a tempos uns pontos escuros dispersos que tanto podem ser de seres vivos como cataratas. Encolho-me no capote e prestcruto mais uma vez com o binóculo e apenas a paisagem de sempre. Dormito-acordo -prescruto-dormito-aconchego-me-bato com os pés-adormeço-entorpeço. Agora, sim parece haver algo, perscruto... um cavalo? talvez, não será o primeiro que se perde por estas paragens. Volto a dormitar-...
Meu tenente!, meu tenente!... Esta mulher...
Estás diante de mim e não é a primeira vez que te vejo sem nunca te ter visto, falas uma língua estranha, desconhecida e contudo compreensível.
- Estavas à minha espera e eu sempre esperei por ti, és o homem da minha vida mas eu não sou a mulher da tua vida, atravessei este deserto... Sim, sou tártara! atravessei este deserto, diz, direito aos teus olhos e aqui estou, e de ti só a ti te quero e agora. Vem, rasga-me usa-me e abusa-me, trespassa-me, morde-me, come-me devora-me, a minha sede é tão funda como o mar, como a tua, a minha fome é a tua fome, um vórtice. Devora-me, devassa e trespassa todos os recantos e frestas do meu corpo derrama e derrama-te pelos meus labinritos como eu em ti me derramo. VEM!
-Nosso tenente!, Nosso tenente! Acorde que são horas (-?...) Um cavalo. Tivemos a visita de mais um cavalo tártaro. Não, não era uma égua, não.

Aqui estou eu de novo a olhar o vazio. Sei que nunca mais terei a visita do cavalo tártaro. Sei agora que este cavalo só visita quem visita uma vez na vida. Eu tive essa sorte rara.

Saturday, February 9, 2008

Onde andas?

Desapareceste de ti se bem que andes sempre comigo, vives onde vivo sem viveres comigo, comes comigo mas sem mim, olhas-me e não me vês, deitas-te comigo mas não dormes comigo, vives na sombra e amas o sol, de todos os que de ti tanto gostam tu é quem menos de ti gostas, desvives da vida de que tanto gostas.

Gostava que regressasses a ti para regressares a mim, te desassombrasses, que dormisses comigo mesmo sem comigo te deitares, que vivesses comigo mesmo sem viveres, que te sentasses à mesa comigo mesmo sem mim, que me visses mesmo sem me olhares. Gostava, enfim, que desvivesses de viver.

Sei que regressas um dia destes como se não tivesses partido e tu só sabes que esse dia nunca mais chega, e eu não consigo desconvencer-te desse convencimento, mas sei que esse dia chegará.