Wednesday, February 13, 2008

O Deserto dos Tártaros

Posto avançado da fortaleza Bastiani. Dias, meses e anos a olhar para este campo árido e álgido à espera. Da linha leitosa e esfumada do horizonte nada surge da tempos a tempos uns pontos escuros dispersos que tanto podem ser de seres vivos como cataratas. Encolho-me no capote e prestcruto mais uma vez com o binóculo e apenas a paisagem de sempre. Dormito-acordo -prescruto-dormito-aconchego-me-bato com os pés-adormeço-entorpeço. Agora, sim parece haver algo, perscruto... um cavalo? talvez, não será o primeiro que se perde por estas paragens. Volto a dormitar-...
Meu tenente!, meu tenente!... Esta mulher...
Estás diante de mim e não é a primeira vez que te vejo sem nunca te ter visto, falas uma língua estranha, desconhecida e contudo compreensível.
- Estavas à minha espera e eu sempre esperei por ti, és o homem da minha vida mas eu não sou a mulher da tua vida, atravessei este deserto... Sim, sou tártara! atravessei este deserto, diz, direito aos teus olhos e aqui estou, e de ti só a ti te quero e agora. Vem, rasga-me usa-me e abusa-me, trespassa-me, morde-me, come-me devora-me, a minha sede é tão funda como o mar, como a tua, a minha fome é a tua fome, um vórtice. Devora-me, devassa e trespassa todos os recantos e frestas do meu corpo derrama e derrama-te pelos meus labinritos como eu em ti me derramo. VEM!
-Nosso tenente!, Nosso tenente! Acorde que são horas (-?...) Um cavalo. Tivemos a visita de mais um cavalo tártaro. Não, não era uma égua, não.

Aqui estou eu de novo a olhar o vazio. Sei que nunca mais terei a visita do cavalo tártaro. Sei agora que este cavalo só visita quem visita uma vez na vida. Eu tive essa sorte rara.

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